Tag: michael brecker

caderno

Cada vez que fico com vontade de ouvir o ‘Nearness of You’ ou o ‘Pilgrimage’, dois dos discos do Michael Brecker que mais me marcaram, e mais solos eu decorei; fico meio triste, lembrando do dia em que ele morreu.

Fui ver o Al Foster tocar no Smoke, em Nova York, uma casa de jazz bem tradicional, na Broadway lá em cima (com a rua noventa e tantos). Passei frio na rua, a estação de metrô que eu precisava estava fechada e tive que andar o resto… o maior programa de índio. Mas dane-se, era pra ver o Al Foster.

Entrei naquele universo todo paralelo, quentinho. Não sabia o que fazer com o casaco, que tinha passado de muito fino e indispensável a um trambolho calorento. Paguei imensos trinta dólares naquela comandinha muito estranha, em que a garçonete passa o seu cartão e, ali onde se assina, você escreve quanto vai dar de gorjeta. Dá-lhe confiança.

Naquela casa que é mais ou menos do tamanho do antigo Villagio Café (metade do Ao Vivo?), eu vi o show com o público mais quente de todos os meus 15 dias entre Crusaders no Blue Note, Kenny Baron e Fly no Village Vanguard, e até festival de jazz underground no SoHo. Depois de 15 dias com platéias de gringos e bacanas achando aquilo ‘muito interessante’, ouvi os primeiros ‘awesome’ e ‘yeah’ da viagem.

E ali no fundo palco, escondido pelos pratos quase verticais e altíssimos, estava o Al Foster. O cara que tocou 13 anos no grupo do Miles Davis e que ainda tá em todas. Entre uma música e outra, ele levanta da bateria, se contorce até o microfone, e diz: “Vamos tocar a próxima música em homenagem a nosso grande amigo, grandissíssimo músico, que faleceu nesta manhã, Michael Brecker”.

Gelei. “Mas ele tinha melhorado! Como assim?” Levei um tempo pra assimilar a notícia.

E a música seguinte foi uma das coisas mais emocionantes que já vi em cima de um palco. Cada solo, cada nota, dizia “Descanse em paz, amigo”.