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Uma das primeiras letras que a cantora Dani Gurgel se lembra ter feito para uma música já existente é “Talvez Humana”, gravada pela primeira vez no DVD “Viadutos”. A música nasceu por inspiração da mãe, Debora Gurgel. Mas não somente. Em 2003, a pianista lançou com Itamar Collaço, no contrabaixo, e Pércio Sapia, na bateria, o disco “Triálogo”, mesmo nome da banda. “Talvez Humana” está lá. E é surpreendente o que essa música transmite, sem letra, e a relação que Dani fez, ao escrever a letra. “Paralelamente à música, desde cedo eu escrevi muito, mas muita prosa, nada de poesia. Até reflete nas minhas letras, que tem um quê mais de crônica que prosa e poesia.”
Também fez isso com “Neneca”, a partir da música feita por Debora que ainda não tinha nome. “Cada música já tem uma sonoridade e acho, também, que o fato de ser musicista, muito tempo antes de começar a escrever, ajudou a conhecer a melodia antes da palavra”, explica, em outro paralelismo, de volta a Elis Regina e, especialmente, Speranza Spalding, Mônica Salmaso e Flora Purim. “Normalmente, quando eu pego uma música praticamente pronta para fazer letra, fico dias, semanas, pensando o que a música já diz. Porque não sou eu que vou forçar uma música dizer alguma coisa que não esteja apta a dizer. Então eu fico ouvindo, pensando o que essa música tem cara, o que essa música já diz, essa melodia tem som do que?”
A ficha de “Neneca” caiu em um almoço de domingo com a famÃlia. “Tem um pedaço que tem o contracanto. E ficava pensando: isso tem uma cara de bagunça, de duas pessoas falando ao mesmo tempo, mas não pode ser uma briga. Parece um almoço de famÃlia da minha casa que não são duas pessoas, são 20 pessoas falando ao mesmo tempo.” E “Da pá Virada”? Novamente, é Debora por Dani, Dani por Débora.
Não é à toa que, entre as 21 músicas do DVD está a prova definitiva sobre como ela consegue cantar do jeito que canta, compor, e aglutinar talentos. Em “Sinceramente”, no bônus do DVD, gravado na sala de Dani, música inédita dela com Edu Luke, ela revela: “Na verdade, não sei falar de algo que não tenha vivido”, começa a cantar. “Pra ser sincera, eu falo do meu quintal. E torço para que o teu se pareça.”
Ela é Elis, Speranza, Mônica, Debora, Flora? A letra de Breno Ruiz para a música de Dani Black, “Samba do Jazz”, gravada por Dani Gurgel no disco “Nosso”, explica. Dani Black veio com a música pronta e pediu a letra para Breno, que se diz poeta bissexto, ainda mais porque diz que o seu “lado poeta fica aniquilado” ao lado de Paulo Cesar Pinheiro, seu parceiro. Para escrever a letra, Breno se lembrou de uma entrevista de Tom Jobim, em que ele faz uma ironia após uma pergunta de um jornalista, que sugeria que a Bossa Nova era influencia do jazz americano. “A bossa nova é o jazz? Ele ri, diz o ”jass…””, lembra Ruiz, cariocando o “s”.
“A bossa nova é reelaboração do samba-canção, José Ramos Tinhorão que não me escute! (risos) É o samba-canção mais sofisticado. E não quis dizer, necessariamente, da importância história do Tom. Mas, pra mim, o Tom é um sambista, não tem como não ser. Você pega mesmo as músicas mais elaboradas. Bicho! Aquilo é samba! Chega num ponto que não interessa mais quem inventou. Era a ideia da letra (Samba do Jazz). Porque aparecem pessoas, em momentos muito diferentes, que tiveram um insight que levou um tipo de melodia similar, criando paralelismo.”

ROGER MARZOCHI – Agência Estado
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Imagine alguém que compartilha o que há de melhor em sua vida. E que deseja, sinceramente, ser igual a todos. Sem hipocrisia. A cantora Dani Gurgel, 25 anos, não tem tempo de ficar pensando o que vão pensar dela. Claro, ela quer ser ouvida, quer se expressar. E achou um meio de fazer isso. É uma concessão à forma, e das melhores. E no DVD “Viadutos”, lançado em novembro com a ajuda de pessoas que pensam o mesmo – ou abriram uma digna concessão à sua obstinação – o resultado está explÃcito e registrado: ela não é mais uma jovem promessa, já está no topo da lista das melhores cantoras do Brasil. E começa 2011 com dois shows no exterior: dia 9 de janeiro no Vinilo Café, em Buenos Aires, na Argentina; dia 11 no Festival Jazz a la Calle, em Mercedes, no Uruguai.
Desde 2007, quando lançou o primeiro disco, “Dani Gurgel”, ela acentuou uma de suas principais caracterÃsticas: não para quieta. Já conta com outros dois discos “Nosso” e “Agora”. Organizada e talentosa, ela coloca todos com a fuça na cara do gol. Monta planilhas para batalhar por recursos do Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo (Proac), que financiou o DVD pelo selo Borandá, carrega cenários de shows, compõe, canta e trabalha como fotógrafa, clicando artistas importantes da música. Na antevéspera do Natal, também venceu mais uma: ganhou novo projeto no Proac para criar um site de entrevistas e download gratuito de músicas.
A música ainda é como uma vida paralela para a cantora, mas ela consegue ver na fotografia muita semelhança com a sua arte. “A hora de entrar na música e a hora de bater uma foto, acho que é muito parecida com a sensação do ritmo de tudo que está acontecendo em volta”, explica, no DVD, gravado no inÃcio de julho. Para entender essa sua consciência do presente é preciso chegar mais perto. Dani é filha da pianista Debora Gurgel, que também conquistou recursos do Proac agora, em dezembro, para a gravação de um disco inédito. Debora integra a banda com Thiago “Big” Rabello na bateria, Michi Ruzitschka na guitarra e Daniel Amorin no contrabaixo.
Assim como a mãe, começou a estudar música cedo. Debora iniciou o estudo de piano aos 8 anos. Dani, quando tinha 3, percebeu o prazer da mãe com seu trabalho, na escola de música do Zimbo Trio (Clam), tocando com Roberto Sion, Amilton Godoy, Percio Sapia, Nelson Panicali, VinÃcius Dorin, a lista é grande. Além de piano, estudou sax, flauta e ainda queria saber como que essas danadas ondas se propagam no ar, no meio eletrônico, e cursou Engenharia Elétrica na Escola Politécnica da USP.
“Desde que elas eram pequenas”, explica Debora, que também é mãe de Luiza. “Elas me vêem tocando como uma coisa prazerosa. Sempre fizemos sarau em casa, sempre procurei puxar os ganchos: vamos tirar na flautinha, no piano? Mas de uma forma não forçada. Elas pediram para entrar na escolinha de música. Eu trabalhava na escola do Zimbo Trio, viam piano pra cá, pra lá, e me viam feliz. E diziam: eu também quero.” Dani confirma: “eu vi o jeito que ela gostava e o prazer que tinha em tocar, eu disse, também quero esse brinquedo.” Começa o paralelismo com o mundo da música instrumental.
Dani começou a estudar flauta doce, aos 4 anos, na Clam. “E quando meu pézinho conseguiu alcançar o pedal do piano, fui para o piano; quando meu dedinho da mão direita conseguiu alcançar as notas graves, eu fui para a flauta transversal; quando consegui colocar um saxofone no pescoço e não cair no chão, fui para o saxofone. A voz, eu só comecei pra valer com 15 ou 16 anos”, lembra. Mas quando ela quis tocar contrabaixo, a mãe não perdoou. “Então vamos trabalhar. Eu fazia muitos eventos e a carregava comigo: contrabaixo e piano tocando jazz e música brasileira. ”Como assim improvisa?”, ela dizia. E eu: ”Se vira””, diverte-se Débora.
Dani tocou saxofone na banda do maestro Roberto Sion, mas quando tinha uns 15 anos, começou a fazer rock em festivais do colégio. Mas ela queria montar uma banda de música brasileira, com músicas próprias, e com os amigos VinÃcius Calderoni e To Brandileone, hoje cantores e compositores parceiros da cantora, criaram a banda “Quincas”. “Minha casa foi a casa da bagunça musical. Considero todos esses meninos meus filhos”, diz Débora.
Foi quando Dani percebeu que poderia cantar e aglutinar talentos. “Aà que entra a lição que eu levo da Elis Regina, que é olhar para os lados, e ver o que tem de novo acontecendo. Porque quando ela gravava o João Bosco, o Gil, era todo mundo molecada”, diz Dani, que tem contribuições importantÃssimas também de Thiago Rabello, Rafa Barreto, Vicente Barreto, Breno Ruiz, Tatiana Parra, Fábio Barros, Ricardo Barros, Caê Rolfsen, Fábio Cadore, Rômulo Froes, Zé Edu Camargo, Leo Minax, Michi Ruzitschka, Daniel Amorim, Filó Machado. E muitos outros que mereceram ocupar o espaço da capa do disco “Agora”, o último de Dani, que reuniu 20 compositores.
E no DVD, assim como no show no Teatro Tuca, no dia 9 de dezembro, em homenagem a Chico Buarque, é possÃvel perceber que há uma cantora madura, que improvisa e interage intensamente com os outros músicos. “A maior influência do jazz no que a gente faz não é nem rÃtmica. É muito harmônica. Mas a maior influencia é da liberdade, de tocar junto, tocar um com o outro, um interferindo no que o outro está fazendo. Eu começo a cantar de um jeito e, se minha mãe sugere alguma coisa no piano, eu mudo o jeito que estou cantando”, diz Dani. Por isso, há erro na divulgação do trabalho. Ela não vai do pop ao jazz. Ela leva o jazz para onde vai. E não canta crônicas de São Paulo. Ela é brasileira. Como o refrão da música de Rafa Barreto e de Dani Gurgel, “Cinza”, lançada no DVD: “Imagina quem tem não mão a cor para misturar. Imagina quem tem no sangue o tom que tem no mar. Imagina quem tem o dom de se lançar, sem olhar.”

Tópicos: Dani Gurgel, DVD Viadutos, Jazz, Arte & lazer, Geral
Matéria completa: http://www.folha.com.br/sp826166
Prédio de Artacho Jurado vira cenário e conceito para DVD de Dani Gurgel
GABRIELA LONGMAN
DE SÃO PAULO
Ela é cantora e compositora. Mas trabalha como fotógrafa para ajudar a pagar as contas. Nas horas vagas, diagrama capas de disco, edita vÃdeos, mexe nos arranjos, agiliza parcerias de produção, dá palpite em cada pequena etapa do processo.
Foi com espÃrito multimÃdia que Dani Gurgel gravou seus três primeiros discos (o EP “Dani Gurgel”, em 2007, “Nosso”, em 2008, e “Agora”, no ano seguinte). Hoje, lança, com show no Auditório Ibirapuera, seu trabalho recém-saÃdo do forno: o DVD “Viadutos”, filmado na cobertura do edifÃcio de mesmo nome, projetado em 1956 por Artacho Jurado (1907-1983).
Ali o arquiteto/empresário construiu no 27º andar um “salão de bailes” envidraçado em 360º, de onde se tem um dos panoramas mais bonitos da cidade. As antenas da Paulista, ao fundo, o Copan visto de costas e uma imensidão de prédios. Filmado ali, o DVD tem o clima de uma “sala Ãntima”: o microfone na mão, a banda tocando e a cidade ao fundo, como cenário, como tema, como público.
“Paulista tem medo de falar de São Paulo. O Rio é lindo, a Bahia é linda. São Paulo não é linda… mas é. Linda porque é muito louca”, diz.
No show/DVD estão 20 canções, a maioria delas feitas em parceria com outros nomes da nova geração. Se nos discos anteriores ela era sobretudo intérprete, o trabalho pretende afirmar sua matriz de compositora.
“Escrevo sobre coisas que eu vivo… e eu vivo na cidade.” Assim, uma música homenageia a cor cinza (“A cidade é cinza gris/ é colorida feita em giz”, diz um dos versos, parceria com Rafa Barreto); outra, com Romulo Fróes, descreve “O Gosto do Asfalto” (“Bueiro sujo até que mata a sede/se a chuva não parar/ um para-raio apaga uma cidade/carrega celular”). Uma terceira (“Silêncio”), com Fabio Cadore, narra um encontro tÃmido num elevador de megalópole.
Se a arquitetura de Jurado mistura linguagens –o moderno, o nouveau, o déco, o clássico– e ornamentos –pastilhas, gradis, pilastras, curvas decorativas–, a música de Dani também é MPB com arranjos profundamente jazzÃsticos, influência marcada de Zimbo Trio, Elis, world music…
“Viadutos conectam as pessoas, sua música e sua vida na cidade. E é isso que eu quero com a minha música”, ela escreveu para apresentar o disco. Nesse baião de conexões, a internet entrou como ferramenta indispensável. Desde o primeiro disco, Dani usa todas as plataformas digitais compulsivamente para divulgar sua música.
“Acho que o Youtube é a nova FM. É mais importante hoje ter muitos views ali do que tocar no rádio. As pessoas reclamam porque o disco está num blog, sendo baixado por todo mundo. Eu acho ótimo.”
Costurando referências e parceiros, procura mapear a nova geração, gravando compositores ainda pouco conhecidos. “Acho que está todo mundo aprendendo a cuidar do próprio nariz. É difÃcil hoje achar alguém que fica parado achando que vai ser ‘descoberto’ por uma gravadora ou algo assim.”
Ela, pelo visto, já foi descoberta. Pela internet, o jornalista francês Edouard Launet encontrou seu nome e seu som. Em fevereiro de 2009, sua foto estourada ganhou uma página inteira no jornal “Libération”. Seu disco já foi mais baixado no Japão do que vendido em lojas no Brasil. Seus viadutos começam a dar voltas.
“motor de pesquisa brasileira”
por Edouard Launet - Libération, Paris - 12.02.2009
“Música precisa, com « suingue », e que não reinventa o fio para cortar a manteiga. (…) Os horizontes impalpáveis do inÃcio de século XXI não a inquietam. Ela exibe ao contrário um otimismo juvenil : «O que fiz ano passado já está velho e eu tenho que fazer melhor em 2009, e assim por diante».”

Vozes Contemporâneas
por Lauro Lisboa Garcia (Estado de São Paulo, 27.02.2009)
“Esse exercÃcio de parceria resulta na espontaneidade e na sofisticação que transparece em cada detalhe do CD, em clima de jam session.”
















